terça-feira, 9 de outubro de 2012

Anjo Negro

Tragédia em 3 atos, de Nelson Rodrigues.

Texto teatral, o que implica a existência de rubricas e discurso direto dos personagens.
A obra foi escrita em 1946, mas foi somente publicada em 2 de abril de 1948, pois havia sido proibida pela censura.
Nelson é realmente polêmico. O que me deixa inquieta é o fato de a crítica costumeiramente ter sido severa e amarga e em oposição a isso as apresentações terem sido um verdadeiro sucesso! Essa última frase foi totalmente pessoal e a seguinte também será, não leve em conta se não quiser.
Para quem caiu de pára-quedas, não leu o livro e nem pretende ler, digo que é uma pena, pois são menos de 90 minutos que você dificilmente irá viver na própria carne - a menos que seja notoriamente louco. Se é curioso como eu e desprovido de julgamentos superficiais e/ou moralistas, está mais do que indicado - um pouco de cultura não faz mal a ninguém e Nelson é um ícone do teatro.

As características do autor são: linguagem super acessível, bem popular, assuntos universais, pornográficos, safadeza é o que não falta, loucuras, tudo o que a sociedade reprime Nelson joga na cara do leitor, todos os desejos, as obscenidades, as repressões, as esquisitices, assuntos polêmicos como incestos, racismo, homossexualidade - TUDO. 

Personagens:

-Ismael: o Grande Negro, médico, sempre com um terno branco engomadíssimo e com seus sapatos de verniz. 
-Virgínia: esposa de Ismael, muito alva.
-Elias: irmão de Ismael, ficou cego por causa de um "equívoco" em seus remédios - ministrado pelo irmão.
-Ana Maria: Filha de Virgínia com Elias.
-Tia: cujas filhas são solteironas.
-Primas: uma que ficou noiva e se suicidou por flagrar Virgínia aos beijos com seu noivo, mais quatro encalhadas. Das quatro, uma foi estuprada no Primeiro Quadro do SEGUNDO ATO e as outras morreram virgens.
-Criada: ajuda Virgínia a se encontrar com Elias.
-Coveiros de crianças:
-O coro das pretas descalças: Soam como a voz da sociedade, como uma espécie de eco de todos os tabus, superstições e extrema religiosidade da época. 


OBS.: Galera, atentem aos nomes dos personagens; vou dar uns poucos esclarecimentos a respeito do que sei. Não faço a mínima ideia se foi intenção do autor, mas acredito que sim, pois enriquece grandemente o texto.
- Ismael: segundo o Gênesis da Bíblia, é o nome dado ao filho de Abraão com a escrava Agar, a prole que não goza da bênção legítima de Deus.
- Elias: um grande homem de Deus no Antigo Testamento, abençoado, cheio do Espírito Santo, homem cujo próprio nome significa "Yahweh é meu Deus" ou "Yahweh é Deus" - e no caso é o bem-aventurado que nasceu branco.
- Virginia: no final do livro, vemos que é uma baita ironia, posto que ela bem que gostava de ser violentada pelo marido e gostou desde a primeira vez. Como é nítido, o significado de Virginia é virgem, casta; mas disso ela não tem é nada.
-Ana Maria: Maria tem origem hebraica, significa senhora, soberana e, por motivo cristão torna-se Senhora Mãe de Deus, o Todo-Poderoso, o que dá mais poder, pureza e outras virtudes ao nome e influencia a definição primeira na concepção da nossa sociedade ocidental. Ana é um prefixo grego que denota mudança, inversão, repetição. Sendo assim, Ana Maria é a que vai repetir o papel da mãe. Por outro lado, se analisarmos "ana" como "a" ou "an" também dá um sentido coerente, pois esses prefixos significam negação, daí Ana Maria passa a ser aquela que em verdade não é soberana - o que faz todo o sentido no último Quadro.

Resumo

PRIMEIRO ATO
Rubrica inicial: indica que o assunto é universal, pode ocorrer em quaisquer tempo e lugar.


Primeiro Quadro
É o velório do menino: o terceiro que morre. Ao ver o caixãozinho sendo levado pelos negros do cemitério, Virgínia bate o sininho freneticamente: única manifestação "ativa" de sua tristeza.
Segundo Quadro
Elias chega a casa do irmão anunciar uma maldição da mãe e pede abrigo até o dia seguinte. O irmão concede com a ressalva de que fique quieto num quartinho. Ismael tranca Virgínia para que não encontre o irmão, mas esta fica sabendo da presença do cunhado através da criada, suborna-a e conversa com ele. Seduzindo-o, convida-o para se dirigir a seu quarto.

SEGUNDO ATO
Rubrica inicial: indica a continuidade do velório com as pretas descalças em meio às preces.


Virginia se entrega a Elias num ato de extremo medo e loucura, mas ambos veem o adultério como algo puro e sem malícia. Virginia desejava um filho que pudesse viver (ela matou os outros três afogados no tanque), a quem pudesse amar como homem (incesto!) e que não fosse negro como o marido. A tia e as primas, que vinham sempre nos nascimentos e nos enterros, chegaram atrasadas e quase pegaram em flagrante. Embora não tenham visto, sacaram tudo. Quando Ismael chegou, a bagunça estava feita. Virginia tentou seduzi-lo, mas não deu certo, ela estava completamente diferente de quando ele havia saído minutos antes. A tia chegou e delatou tudo. Ismael, colérico, expulsou as 5 da casa e matou o irmão de criação. Elas ficaram amontoadas num canto do jardim esperando gritos ou tiro. Pensaram que Virgina havia sido morta, mas não.

TERCEIRO ATO
Rubrica inicial: 15 anos se passaram...


Primeiro Quadro
Para a tristeza, ódio, rancor e tudo o que há de maus sentimentos no coração de Virginia: nasceu uma menina.
Ismael fez uma verdadeira lavagem cerebral na garota. Ela tem verdadeira adoração por ele. Acha que todos os homens do mundo são negros e maus e ele é o único branco e bom. Ela nunca saiu de seu quarto. Nasceu saudável, mas quando criancinha o pai jogou ácido em seus olhos para que a mentira "colasse". Um dia, ouviram uma mulher gritando e era uma das primas sendo violada e posteriormente morta. A violação era mandato da tia, mas a morte não fazia parte do plano. O fato é que a doida da tia não queria que a filha morresse doente infeliz e à beira da insanidade como as outras morreram. Ismael deu três noites para Virginia convencer a filha de que ele havia mentido para ela a vida toda. E após isso ela seria expulsa de casa.  
Segundo Quadro
Pergunta se adiantou... Foi um embate histérico, fanático e freudiano. Nada feito, a menina ama, adora, venera e transa com o "pai". E a expulsão veio. Mas nesta hora, Virgínia percebe que o ódio que tem de Ismael é, em verdade, uma paixão louca, desmedida, com desejo desde criança quando viu quatro carregadores de piano negros passando na rua. Ela o esperava, era louca por ele. Convence-o de que o Ismael amado por Ana Maria não existe, não é ele e ela o ama tal como é: preto. Ambos perdidos dentro de si mesmos e loucos pelo poder, inclusive um sobre os outro, combinam de matar Ana Maria prendendo-a dentro do mausoléu de vidro construído por Ismael. 
O livro termina com o desejo entre os dois reacendendo como uma chama demoníaca e com a menina gritando surdamente dentro da caixa de vidro.