Dentre os objetivos do livro, estão: dar ares de lirismo ao frio estudo científico de Freud, como o próprio autor diz no "A propósito", no final do livro; fazer uma sátira ao seu tempo; fixar o determinismo no desencadeamento dos fatos - apesar de não "amarrar" o desfecho por não querer dar ao livro a incumbência de comprovar tese alguma.
A história começa sem "anúncio". Não há demarcação clara de capítulos, tomos, blocos, partes ou similares, porém, quando o autor sai do enredo para conversar diretamente com o leitor, costuma pular duas linhas deixando um espaço em branco. Isso também acontece quando há uma mudança de cena ou o que seriam o término de um parágrafo e o início de outro. A demarcação desses eventos se dá mais pela atenção do que por elementos formais da escrita. A única cisão que há claramente é a que inicia a segunda parte do livro (após o idílio).
Na publicação de 2008 cuja capa está acima, há uns esclarecimentos de Marlene Gomes Mendes acerca do que Mario modificou da primeira para a segunda edição.
ANÁLISE:
Narrativa em primeira pessoa, linguagem moderna com bastantes neologismos, há digressões machadianas daquelas que o autor dialoga com o leitor a respeito de como se dá a fabricação do livro.
Personagens:
- Maria Luísa, 12,sempre doentinha. Aprendiz de piano.
- Laurita, 7.
- Aldinha, 5.
- Dona Laura Sousa Costa, mulata (descrita ironicamente, pois ela e Costa teriam se casado por conveniência não por escolha e por posarem de portugueses).
- o criado japonês
- Felisberto Sousa Costa, mulato (descrito ironicamente pelo mesmo motivo de Laura).
- Carlos Alberto Sousa Costa, 15.
- Elza (Fräulein), 35 anos, alemã ("raça superior").
Enredo: A história é algo não usual. Eles moravam na cidade de Higienópolis, certo dia, o pai decide que está na hora de seu filho ter "algumas lições". O objetivo é que o garoto não "se perca" em jogos de azar, drogas, doenças sexualmente transmissíveis e não se apaixone por qualquer uma por aí a torrar o dinheiro do pai. Como o autor mesmo coloca, evita escândalos, vergonha, além de ser uma medida "profilática" para os males citados.
Felisberto pede informações para um amigo, lhe é indicada Elza e ela muda-se para sua casa para exercer sua profissão - e ela deixa bem claro que se trata de algo profundamente profissional ostentando uma espécie de orgulho afetado quando se apresenta ao pai de família.
Fräulein supostamente é a nova governanta da casa, ensina alemão para Carlos e para as mais novas, vai se tornando uma espécie de relógio da casa, impondo disciplina. Um dia Dona Laura, se desentende com a professora e esta quase vai embora, mas fica. Continua suas lições com Carlos (tudo previamente combinado com Sousa Costa por exatos 8 contos de réis!).
E Carlos se apaixona, começa o idílio propriamente dito. Missão cumprida: amor integral ensinado ao garoto - na teoria e na prática.
O livro quase todo se passa nas dependências da casa da família, exceto por dois passeios: o primeiro é uma visita rápida a uma propriedade nova e o outro é no Rio de Janeiro.
O segundo é mais longo e nele Mario descreve o típico passeio brasileiro (com algumas citações que estarão no final).
Sousa Costa prega uma peça no filho. Um belo dia, abre a porta do quarto de Fräulein, onde acontecia a maior parte dos encontros dos amantes, e "flagra" os dois. O pai coloca a maior pressão no garoto, fala que ela é uma aventureira, que poderia querer casar-se, que poderia engravidar... e a possibilidade de um filho apavora Carlos de tal modo que o garoto entra em pânico total. Ela vai embora no dia seguinte. Fräulein, embora sofresse, queria um final trágico (coisa de alemão, e Werther é citado) e Sousa Costa, no fundo se divertiu e se sentiu o melhor dos dramaturgos. Fim do idílio.
Passa-se uma semana e Carlos na apatia total, a família toda se compadece, parece que o martírio jamais se acabará. Acaba.
Adiantou? Não sei.. Numa cena, Carlos está voltando da rua Ipiranga (conhecidamente pelos seus estabelecimentos para divertimento de cavalheiros) às 22h. Será?
E o próximo a tomar lições de amor é um Luís, assim como foram tantos outros que até se casaram... e Elza se enche de um orgulho de mãe por estes garotos - apesar de sofrer ao ver Carlos com uma namoradinha tempos depois.
Citações:
Fräulein não podia sentir a gosto com aquela gente! Podia porque era bem alemã. Tinha esse poder de adaptação exterior dos alemães, que é mesmo a maior razão do progresso deles.
->Típica fotografia de família tradicional, católica e rica.
(..) A mãe está sentada com a filha menorzinha no colo. O pai de pé descansa protetoramente no ombro dela a mão honrada. Em torno se arranjam os barrigudinhos. (...)
->Um exemplo de expressão freudiana (complexo de Édipo):
Maria Luísa um dia disse:
- Como ela está ficando parecida com a senhora, dona Laura.
Há muitas divagações de Fräulein pensando como age o "homem-do-sonho" e o "homem-da-vida". Este é o que grita de desejos concupiscentes, é terreno dado a soluções práticas e imediatas; aquele, é o que canaliza seus impulsos sexuais para a dimensão cultural, mais refinado, superior.
->Ironia (tem várias deste tipo):
Elza consolava a pecurrucha com meiguice emprestada.
->Modelo de amor que ela esperava de Carlos:
O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores.(...)
O amor sincero, elevado, cheio de senso prático, sem loucuras.
->Modelo de amor que ela obteve de Carlos:
O amor latino, sem as idealizações que Fräulein sonhara, amor baixo, instintivo.
->Quadro da sociedade da época - ao menos o idealizado por Fräulein:
O homem tem que ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Porém sem domínio. Provê. É certo que a mulher o ajudará. Ajudará muito, dando algumas lições de línguas, servindo de acompanhadora pra ensaios na Panzschule, fazendo a comida, preparando doces, regando as flores, pastoreando os gansos alvos do prado, enfeitando os lindos cabelos com margaridinhas...
Na publicação de 2008 cuja capa está acima, há uns esclarecimentos de Marlene Gomes Mendes acerca do que Mario modificou da primeira para a segunda edição.
ANÁLISE:
Narrativa em primeira pessoa, linguagem moderna com bastantes neologismos, há digressões machadianas daquelas que o autor dialoga com o leitor a respeito de como se dá a fabricação do livro.
Personagens:
- Maria Luísa, 12,sempre doentinha. Aprendiz de piano.
- Laurita, 7.
- Aldinha, 5.
- Dona Laura Sousa Costa, mulata (descrita ironicamente, pois ela e Costa teriam se casado por conveniência não por escolha e por posarem de portugueses).
- o criado japonês
- Felisberto Sousa Costa, mulato (descrito ironicamente pelo mesmo motivo de Laura).
- Carlos Alberto Sousa Costa, 15.
- Elza (Fräulein), 35 anos, alemã ("raça superior").
Enredo: A história é algo não usual. Eles moravam na cidade de Higienópolis, certo dia, o pai decide que está na hora de seu filho ter "algumas lições". O objetivo é que o garoto não "se perca" em jogos de azar, drogas, doenças sexualmente transmissíveis e não se apaixone por qualquer uma por aí a torrar o dinheiro do pai. Como o autor mesmo coloca, evita escândalos, vergonha, além de ser uma medida "profilática" para os males citados.
Felisberto pede informações para um amigo, lhe é indicada Elza e ela muda-se para sua casa para exercer sua profissão - e ela deixa bem claro que se trata de algo profundamente profissional ostentando uma espécie de orgulho afetado quando se apresenta ao pai de família.
Fräulein supostamente é a nova governanta da casa, ensina alemão para Carlos e para as mais novas, vai se tornando uma espécie de relógio da casa, impondo disciplina. Um dia Dona Laura, se desentende com a professora e esta quase vai embora, mas fica. Continua suas lições com Carlos (tudo previamente combinado com Sousa Costa por exatos 8 contos de réis!).
E Carlos se apaixona, começa o idílio propriamente dito. Missão cumprida: amor integral ensinado ao garoto - na teoria e na prática.
O livro quase todo se passa nas dependências da casa da família, exceto por dois passeios: o primeiro é uma visita rápida a uma propriedade nova e o outro é no Rio de Janeiro.
O segundo é mais longo e nele Mario descreve o típico passeio brasileiro (com algumas citações que estarão no final).
Sousa Costa prega uma peça no filho. Um belo dia, abre a porta do quarto de Fräulein, onde acontecia a maior parte dos encontros dos amantes, e "flagra" os dois. O pai coloca a maior pressão no garoto, fala que ela é uma aventureira, que poderia querer casar-se, que poderia engravidar... e a possibilidade de um filho apavora Carlos de tal modo que o garoto entra em pânico total. Ela vai embora no dia seguinte. Fräulein, embora sofresse, queria um final trágico (coisa de alemão, e Werther é citado) e Sousa Costa, no fundo se divertiu e se sentiu o melhor dos dramaturgos. Fim do idílio.
Passa-se uma semana e Carlos na apatia total, a família toda se compadece, parece que o martírio jamais se acabará. Acaba.
Adiantou? Não sei.. Numa cena, Carlos está voltando da rua Ipiranga (conhecidamente pelos seus estabelecimentos para divertimento de cavalheiros) às 22h. Será?
E o próximo a tomar lições de amor é um Luís, assim como foram tantos outros que até se casaram... e Elza se enche de um orgulho de mãe por estes garotos - apesar de sofrer ao ver Carlos com uma namoradinha tempos depois.
Citações:
Fräulein não podia sentir a gosto com aquela gente! Podia porque era bem alemã. Tinha esse poder de adaptação exterior dos alemães, que é mesmo a maior razão do progresso deles.
->Típica fotografia de família tradicional, católica e rica.
(..) A mãe está sentada com a filha menorzinha no colo. O pai de pé descansa protetoramente no ombro dela a mão honrada. Em torno se arranjam os barrigudinhos. (...)
->Um exemplo de expressão freudiana (complexo de Édipo):
Maria Luísa um dia disse:
- Como ela está ficando parecida com a senhora, dona Laura.
Há muitas divagações de Fräulein pensando como age o "homem-do-sonho" e o "homem-da-vida". Este é o que grita de desejos concupiscentes, é terreno dado a soluções práticas e imediatas; aquele, é o que canaliza seus impulsos sexuais para a dimensão cultural, mais refinado, superior.
->Ironia (tem várias deste tipo):
Elza consolava a pecurrucha com meiguice emprestada.
->Modelo de amor que ela esperava de Carlos:
O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores.(...)
O amor sincero, elevado, cheio de senso prático, sem loucuras.
->Modelo de amor que ela obteve de Carlos:
O amor latino, sem as idealizações que Fräulein sonhara, amor baixo, instintivo.
->Quadro da sociedade da época - ao menos o idealizado por Fräulein:
O homem tem que ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Porém sem domínio. Provê. É certo que a mulher o ajudará. Ajudará muito, dando algumas lições de línguas, servindo de acompanhadora pra ensaios na Panzschule, fazendo a comida, preparando doces, regando as flores, pastoreando os gansos alvos do prado, enfeitando os lindos cabelos com margaridinhas...
->Palavras de Mário:
Carlos é apenas uma apresentação, uma constatação da constância cultural brasileira. E se não dei solução é porque meus livros não sabem ser tese.
Carlos é apenas uma apresentação, uma constatação da constância cultural brasileira. E se não dei solução é porque meus livros não sabem ser tese.
->Caráter universal da obra:
Não se consegue tirar de Amar, verbo intransitivo, mais que a constatação de uma infelicidade que independe dos homens.
Não se consegue tirar de Amar, verbo intransitivo, mais que a constatação de uma infelicidade que independe dos homens.
->Fräulein está realmente interessada no garoto, nota que dessa vez é diferente e isso se comprova em passagens como:
Fräulein engole quase um remorso porque se apanha a divagar. (...)
Fräulein é que sentia-se quebrar. Tinha angústias desnecessárias, calores, fraquezas. (...)
-> O caso paralelo entre os dois migrantes:
Apalermados pela miséria, batidos pelo mesmo anseio de salvação, sofrenados pelo fogaréu do egoísmo e da inveja, na mesma rocha vão trêmulos se unir. A queimada esbraveja em torno. Os guatantãs se lascam em risadas chocarreiras de reco-recos. A cascavel chocalha. A suçuarana prisca. As labaredas lambem a rocha. Pula uma irara, que susto! Peroba tomba. O repuxo das fagulhas dançarinas vidrilha de ouro o fumo lancetado pelas cuquiadas dos guaribas. Os dois tigres ofegam. Falta de ar. Sufocam, meu Deus! (...)
Agora que as relações entre os dois tigres ficaram esclarecidas, só me resta aconselhar aos leitores o seguinte: A gente não deve culpar nem Fräulein nem o criado japonês. Não adianta nada, nem são tão culpados assim. E tem isso de imensamente cômico, que no fundo se odeiam.
Fräulein engole quase um remorso porque se apanha a divagar. (...)
Fräulein é que sentia-se quebrar. Tinha angústias desnecessárias, calores, fraquezas. (...)
-> O caso paralelo entre os dois migrantes:
Apalermados pela miséria, batidos pelo mesmo anseio de salvação, sofrenados pelo fogaréu do egoísmo e da inveja, na mesma rocha vão trêmulos se unir. A queimada esbraveja em torno. Os guatantãs se lascam em risadas chocarreiras de reco-recos. A cascavel chocalha. A suçuarana prisca. As labaredas lambem a rocha. Pula uma irara, que susto! Peroba tomba. O repuxo das fagulhas dançarinas vidrilha de ouro o fumo lancetado pelas cuquiadas dos guaribas. Os dois tigres ofegam. Falta de ar. Sufocam, meu Deus! (...)
Agora que as relações entre os dois tigres ficaram esclarecidas, só me resta aconselhar aos leitores o seguinte: A gente não deve culpar nem Fräulein nem o criado japonês. Não adianta nada, nem são tão culpados assim. E tem isso de imensamente cômico, que no fundo se odeiam.
-> O passeio no Rio:
* "Retrato da família perante a sociedade":
(...) o trem partia. Então, depois de mais uma olhadela para ver se todos estavam ali bem garantidos, dona Laura se lembrou que era senhora de sociedade. Ergueu um pouco o busto, recolheu o ventre para caber melhor dentro da cinta e tentou guardar os fiapos de cabelo que lhe choviam pelo rosto, pela nuca, orelhas. (...)
Marina, a pretinha, era inútil aos quatorze anos de sonho. Sousa Costa, esse fazia só pagar, pagar era com ele, ninguém mais calmo para sacar a carteira do bolso e dar gorjeta boa. Mas o resto, não entendia dessas "coisas de mulher". (...) As malas todas despachadas, as maletas, bolsas, sacos de viagem, os filhos luvas (...) tudo ali.
* Aldinha se apaixona pelo garotinho norueguês de seis aninhos, Fräulein fica envergonhada com a situação - como com tudo o que aconteceu neste passeio, sentia até vontade de chorar!
Aldinha leva um tombo e vai parar no colo da mãe do garotinho, as crianças querendo biscoito, uma balbúrdia! Num momento, Felisberto se levanta, vai bater na filha; Elza avança para impedi-lo, um solavanco! Ambos de cara nos peitos de dona Laura, o trem inteiro cai na gargalhada.
A melhor coisa é ler a obra - especialmente se precisar para alguma finalidade avaliativa -, mas espero ter ajudado! Qualquer sugestão, reclamação ou elogio, comente.
Seu comentário é muito valioso. Obrigada.
