terça-feira, 28 de agosto de 2012

Urupês



Segundo consta em http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato/outros/listagem_anexo_1.pdf

A Primeira Edição de Urupês de Monteiro Lobato foi publicada em 1918. O autor pertence ao pré-modernismo e, tal qual sua "geração" é um crítico de seu tempo. Digo geração entre parênteses porque o período é mais um intervalo entre Realismo e Naturalismo (início em 1881 aqui no Brasil) e Literatura Moderna (1922) do que um movimento com características comuns; em verdade, a literatura das duas primeiras décadas do século passado é marcada justamente pela falta de peculiaridade do que pela presença desta. 

Análise dos contos:
[INCOMPLETA]

O engraçado arrependido:

Conto narrado em terceira pessoa, publicado pela primeira vez na Revista do Brasil em 1917, sob título A Gargalhada do Colector.
Personagens: Francisco Teixeira de Souza Pontes, Major Bentes (o coletor federal) e personagens "tipo" da vizinhança.

O Pontes, filho bastardo de família rica, viveu até os 32 anos tendo como renda uma boa pilhéria. Ele era uma espécie de "piada encarnada" da cidade. Todos riam dele. Um dia, cansado dessa vida e dessa postura diante da sociedade, de nunca ser levado a sério, resolveu pedir emprego no comércio e na fazenda. Ninguém o levava a sério. Tentou o governo.
A melhor alternativa que encontrou foi matar o coletor (o major Bentes): velho e cardíaco. Ficou dias tramando a fatalidade, aproximou-se do homem, tornou-se útil na repartição e afinou-se com o gosto do velho. Num dia (aparentemente o dia mais feliz da vida de Bentes) com a casa cheia, o homem deu a primeira e última gargalhada se sua vida. Como batera a culpa em Pontes, ficou isolado de tudo, não avisou seu "contato" no governo que lhe ia garantir o cargo. E o conto termina:

- Vejam que criatura! Até morrendo faz chalaça. Enforcar-se na ceroula! Esta é mesmo do Pontes... E reeditaram em coro meia dúzia de "quás" - único epitáfio que lhe deu a sociedade. 

Bucólica:

Conto narrado em terceira pessoa.
Personagens: Sinh'Ana, Luiz, Urunduva, Maria Veva papuda (mulher do bobo Pedro Suã), Inácia (a preta agregada aos Suãs que cuidava da Anica), Zico (negrinho fofoqueiro que conta o ocorrido a Inácia);

As primeiras duas páginas são marcadas pela descrição. Embora a linguagem seja moderna, há uma descrição inflamada da paisagem característica do romantismo; é de se imaginar que faz parte da ironia e da   cumplicidade da natureza para com os causos narrados nas páginas seguintes - especialmente em se tratando da morte de Anica. Aqui temos vocábulos regionais, típicos do caboclo. Lobato critica a ignorância dos personagens em algumas exclamações que parecem discurso indireto livre, Luiz, Urunduva e Anica estão doentes, mas ninguém sabe o que é. O ápice do conto é a morte de Anica; a menina morre de sede. De sede. E a paisagem passa de úmida e vivaz a árida e morta - tal qual Anica e no texto passa a predominar o discurso direto. Acamada havia 7 anos, na noite em que a negra Inácia fora à cidade vizinha para buscar um remédio para a pobre, a menina suplicara por água e não fora atendida: o pai chegara bêbado em casa e não notara, a mãe por preguiça, maldade e sabe-se lá mais o que negara um copo d'água à infeliz e o negrinho Zico - também produto da ignorância, medo da patroa e do não paga pena - recusara o último pedido da garota. Ao retornar a casa de Maria Veva, a negra se depara com a menina morta rente ao pote d'água na cozinha e parece ser a única a sofrer pela morte.  

(Curiosidade: numa das falas, o narrador chama Maria Veva de Sicorax, que consiste em uma referência à bruxa poderosa e horrenda da peça A Tempestade de W. Shakespeare)

O mata-pau:

Escrito em 1915.
Conto narrado em primeira pessoa.
Personagens: Elesbão do Queixo D'Anta, Rosinha Poca, João Poca (balaieiro, pai de Rosinha), Manuel Aparecido (apelidado Ruço por conta de seu cabelo louro).

Inicia-se com a descrição da paisagem e se atém ao cipó mata-pau e seu "ciclo de vida":

- Aquele fiapinho de planta, ali no rancho daquele cedro - [...]- Começa assinzinho, meia dúzia de folhas piquiras; bota p'ra baixo esse fio de barbante na tenção de chegar a terra. E vai sempre indo, sempre naquilo, nem p'ra mais, nem p'ra menos, até que o fio alcance o chão. E vai então o fio vira raiz e pega a beber sustâcia da terra. A parasita cria fôlego e cresce que nem embaúva. O barbantinho engrossa todo dia, passa a cordel, passa a corda, passa a pau de caibro e acaba virando tronco de árvore e matando a mãe, como este guampudo aqui.

Ao deitar os olhos sobre uma propriedade abandonada, o capataz começa a contar a história de Elesbão.
Elesbão nascera ali mesmo, decidira casar-se com Rosinha - que segundo seu pai era assanhada como a mãe e as mulheres daquela família não fugiam ao padrão. Embora a dica tenha sido dada, o rapaz casou-se. O filho não vinha. Um dia apareceu um bebê no quintal do sítio e, como não encontrassem parente do menino na redondeza, passaram a criá-lo - novamente com o alerta do velho indo contra a atitude do filho. Quando Rosa contava 30 e Manuel 18,  a relação entre os dois mudou e o povo começou a falar. Com o pé na cova, mais uma vez o velho alertou o filho acerca da mulher. Como Elesbão tornasse taciturno, Ruço o matou com uma foice, mas nunca foi condenado por isso. Ele e Rosa passaram a viver como cônjuges em casa, mas para a sociedade, como mãe e filho. Por último Ruço convence Rosa a vender o sítio e irem para o oeste. Uma noite antes da fuga, o rapaz tenta matar a madrasta queimada, mas ela consegue escapar e enlouquece no hospital.

O estigma:

Conto narrado em primeira pessoa.
Narrador: Bruno
Personagens: Bruno, Fausto, Laura, a mulher (má) de Fausto.

Bruno está saindo de uma cidadezinha no interior quando se perde à noite na chuva e, por engano, chega a fazenda de um velho amigo dos tempos da faculdade. No jantar, Bruno contempla a beleza, a simplicidade, a simpatia e a docilidade de Laurita; observa o ar de maldade da senhora da família Leme da Pedra Fria, seus traços gélidos e seu olhar de ave de rapina. Fato: Fausto casou-se por dinheiro. Sua infelicidade conjugal e sua paixão pela prima estão largamente confessadas no excerto abaixo:

 - Sabes o que é uma face noruega? Cá tens uma. Não bate o sol. Muita folha, muito viço, verdes carregados, mas nada de flores ou frutas. Sempre esta frialdade úmida. Laura... é como um raio de sol matutino que folga e ri na face noruega da minha vida...

Vinte anos depois, Fausto e Bruno se reencontram e este é atualizado do que acontecera na vida daquele: Laura sai um dia para uma caminhada costumeira e não volta. A mulher de Fausto havia matado a pobrezinha por ciúme. Fausto, ao encontrar o corpo frio da moça, tomado por um lapso de insanidade, beija-a. Na ocasião, a mulher estava grávida; na penúltima página, nasce o filho com "o estigma" (mancha semelhante ao tiro e ao sangue escorrido no peito de Laura), denúncia cabal de que a única evidência de suicídio, a arma de Fausto ao lado da mão de Laura, era falsa. A senhora Leme morre de febre puerperal.

Velha praga:

É um artigo, não um conto. Aqui Lobato ataca atrozmente o caboclo, considera-o a "velha praga" que impede o país de crescer. O sertanejo, com a prática da coivara (desmatamento e posterior queimada) o sertanejo vai empobrecendo a terra e como uma verdadeira praga, devasta a terra, absorve tudo o que ela tem de bom - não produz coisa alguma -, apenas consome e destrói o que vê pela frente. É uma praga funesta.

Urupês:

O texto é mais dissertativo-descritivo do que narrativo. Aqui o autor faz referências ao romantismo (indianismo de Alencar) e à medida que descreve peculiaridades do homem sertanejo critica severamente sua improdutividade na terra (tal qual o urupê), sua falta de ambição, ausência de produtividade artística e dá exemplos de soluções paliativas transmitidas de geração em geração sem serem questionadas ou burladas - justamente por serem expressão máxima da "lei do menor esforço", consagrada pela fala Não paga pena
E o conto se encerra com:

Só ele [o caboclo] não fala, não canta, não ri, não ama.
Só ele, no meio de tanta vida, não vive...