terça-feira, 9 de outubro de 2012

Anjo Negro

Tragédia em 3 atos, de Nelson Rodrigues.

Texto teatral, o que implica a existência de rubricas e discurso direto dos personagens.
A obra foi escrita em 1946, mas foi somente publicada em 2 de abril de 1948, pois havia sido proibida pela censura.
Nelson é realmente polêmico. O que me deixa inquieta é o fato de a crítica costumeiramente ter sido severa e amarga e em oposição a isso as apresentações terem sido um verdadeiro sucesso! Essa última frase foi totalmente pessoal e a seguinte também será, não leve em conta se não quiser.
Para quem caiu de pára-quedas, não leu o livro e nem pretende ler, digo que é uma pena, pois são menos de 90 minutos que você dificilmente irá viver na própria carne - a menos que seja notoriamente louco. Se é curioso como eu e desprovido de julgamentos superficiais e/ou moralistas, está mais do que indicado - um pouco de cultura não faz mal a ninguém e Nelson é um ícone do teatro.

As características do autor são: linguagem super acessível, bem popular, assuntos universais, pornográficos, safadeza é o que não falta, loucuras, tudo o que a sociedade reprime Nelson joga na cara do leitor, todos os desejos, as obscenidades, as repressões, as esquisitices, assuntos polêmicos como incestos, racismo, homossexualidade - TUDO. 

Personagens:

-Ismael: o Grande Negro, médico, sempre com um terno branco engomadíssimo e com seus sapatos de verniz. 
-Virgínia: esposa de Ismael, muito alva.
-Elias: irmão de Ismael, ficou cego por causa de um "equívoco" em seus remédios - ministrado pelo irmão.
-Ana Maria: Filha de Virgínia com Elias.
-Tia: cujas filhas são solteironas.
-Primas: uma que ficou noiva e se suicidou por flagrar Virgínia aos beijos com seu noivo, mais quatro encalhadas. Das quatro, uma foi estuprada no Primeiro Quadro do SEGUNDO ATO e as outras morreram virgens.
-Criada: ajuda Virgínia a se encontrar com Elias.
-Coveiros de crianças:
-O coro das pretas descalças: Soam como a voz da sociedade, como uma espécie de eco de todos os tabus, superstições e extrema religiosidade da época. 


OBS.: Galera, atentem aos nomes dos personagens; vou dar uns poucos esclarecimentos a respeito do que sei. Não faço a mínima ideia se foi intenção do autor, mas acredito que sim, pois enriquece grandemente o texto.
- Ismael: segundo o Gênesis da Bíblia, é o nome dado ao filho de Abraão com a escrava Agar, a prole que não goza da bênção legítima de Deus.
- Elias: um grande homem de Deus no Antigo Testamento, abençoado, cheio do Espírito Santo, homem cujo próprio nome significa "Yahweh é meu Deus" ou "Yahweh é Deus" - e no caso é o bem-aventurado que nasceu branco.
- Virginia: no final do livro, vemos que é uma baita ironia, posto que ela bem que gostava de ser violentada pelo marido e gostou desde a primeira vez. Como é nítido, o significado de Virginia é virgem, casta; mas disso ela não tem é nada.
-Ana Maria: Maria tem origem hebraica, significa senhora, soberana e, por motivo cristão torna-se Senhora Mãe de Deus, o Todo-Poderoso, o que dá mais poder, pureza e outras virtudes ao nome e influencia a definição primeira na concepção da nossa sociedade ocidental. Ana é um prefixo grego que denota mudança, inversão, repetição. Sendo assim, Ana Maria é a que vai repetir o papel da mãe. Por outro lado, se analisarmos "ana" como "a" ou "an" também dá um sentido coerente, pois esses prefixos significam negação, daí Ana Maria passa a ser aquela que em verdade não é soberana - o que faz todo o sentido no último Quadro.

Resumo

PRIMEIRO ATO
Rubrica inicial: indica que o assunto é universal, pode ocorrer em quaisquer tempo e lugar.


Primeiro Quadro
É o velório do menino: o terceiro que morre. Ao ver o caixãozinho sendo levado pelos negros do cemitério, Virgínia bate o sininho freneticamente: única manifestação "ativa" de sua tristeza.
Segundo Quadro
Elias chega a casa do irmão anunciar uma maldição da mãe e pede abrigo até o dia seguinte. O irmão concede com a ressalva de que fique quieto num quartinho. Ismael tranca Virgínia para que não encontre o irmão, mas esta fica sabendo da presença do cunhado através da criada, suborna-a e conversa com ele. Seduzindo-o, convida-o para se dirigir a seu quarto.

SEGUNDO ATO
Rubrica inicial: indica a continuidade do velório com as pretas descalças em meio às preces.


Virginia se entrega a Elias num ato de extremo medo e loucura, mas ambos veem o adultério como algo puro e sem malícia. Virginia desejava um filho que pudesse viver (ela matou os outros três afogados no tanque), a quem pudesse amar como homem (incesto!) e que não fosse negro como o marido. A tia e as primas, que vinham sempre nos nascimentos e nos enterros, chegaram atrasadas e quase pegaram em flagrante. Embora não tenham visto, sacaram tudo. Quando Ismael chegou, a bagunça estava feita. Virginia tentou seduzi-lo, mas não deu certo, ela estava completamente diferente de quando ele havia saído minutos antes. A tia chegou e delatou tudo. Ismael, colérico, expulsou as 5 da casa e matou o irmão de criação. Elas ficaram amontoadas num canto do jardim esperando gritos ou tiro. Pensaram que Virgina havia sido morta, mas não.

TERCEIRO ATO
Rubrica inicial: 15 anos se passaram...


Primeiro Quadro
Para a tristeza, ódio, rancor e tudo o que há de maus sentimentos no coração de Virginia: nasceu uma menina.
Ismael fez uma verdadeira lavagem cerebral na garota. Ela tem verdadeira adoração por ele. Acha que todos os homens do mundo são negros e maus e ele é o único branco e bom. Ela nunca saiu de seu quarto. Nasceu saudável, mas quando criancinha o pai jogou ácido em seus olhos para que a mentira "colasse". Um dia, ouviram uma mulher gritando e era uma das primas sendo violada e posteriormente morta. A violação era mandato da tia, mas a morte não fazia parte do plano. O fato é que a doida da tia não queria que a filha morresse doente infeliz e à beira da insanidade como as outras morreram. Ismael deu três noites para Virginia convencer a filha de que ele havia mentido para ela a vida toda. E após isso ela seria expulsa de casa.  
Segundo Quadro
Pergunta se adiantou... Foi um embate histérico, fanático e freudiano. Nada feito, a menina ama, adora, venera e transa com o "pai". E a expulsão veio. Mas nesta hora, Virgínia percebe que o ódio que tem de Ismael é, em verdade, uma paixão louca, desmedida, com desejo desde criança quando viu quatro carregadores de piano negros passando na rua. Ela o esperava, era louca por ele. Convence-o de que o Ismael amado por Ana Maria não existe, não é ele e ela o ama tal como é: preto. Ambos perdidos dentro de si mesmos e loucos pelo poder, inclusive um sobre os outro, combinam de matar Ana Maria prendendo-a dentro do mausoléu de vidro construído por Ismael. 
O livro termina com o desejo entre os dois reacendendo como uma chama demoníaca e com a menina gritando surdamente dentro da caixa de vidro. 





quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Amar, verbo intransitivo


Livro de Mario de Andrade. A primeira publicação? Um escândalo!
Pertence ao Modernismo. 
Dentre os objetivos do livro, estão: dar ares de lirismo ao frio estudo científico de Freud, como o próprio autor diz no "A propósito", no final do livro; fazer uma sátira ao seu tempo; fixar o determinismo no desencadeamento dos fatos - apesar de não "amarrar" o desfecho por não querer dar ao livro a incumbência de comprovar tese alguma.

A história começa sem "anúncio". Não há demarcação clara de capítulos, tomos, blocos, partes ou similares, porém, quando o autor sai do enredo para conversar diretamente com o leitor, costuma pular duas linhas deixando um espaço em branco. Isso também acontece quando há uma mudança de cena ou o que seriam o término de um parágrafo e o início de outro. A demarcação desses eventos se dá mais pela atenção do que por elementos formais da escrita. A única cisão que há claramente é a que inicia a segunda parte do livro (após o idílio).
Na publicação de 2008 cuja capa está acima, há uns esclarecimentos de Marlene Gomes Mendes acerca do que Mario modificou da primeira para a segunda edição.

ANÁLISE:
Narrativa em primeira pessoa, linguagem moderna com bastantes neologismos, há digressões machadianas daquelas que o autor dialoga com o leitor a respeito de como se dá a fabricação do livro.

Personagens:
- Maria Luísa, 12,sempre doentinha. Aprendiz de piano.
- Laurita, 7.
- Aldinha, 5.
- Dona Laura Sousa Costa, mulata (descrita ironicamente, pois ela e Costa teriam se casado por conveniência não por escolha e por posarem de portugueses).
- o criado japonês
- Felisberto Sousa Costa, mulato (descrito ironicamente pelo mesmo motivo de Laura).
- Carlos Alberto Sousa Costa, 15.
- Elza (Fräulein), 35 anos, alemã ("raça superior").

Enredo: A história é algo não usual. Eles moravam na cidade de Higienópolis, certo dia, o pai decide que está na hora de seu filho ter "algumas lições". O objetivo é que o garoto não "se perca" em jogos de azar, drogas, doenças sexualmente transmissíveis e não se apaixone por qualquer uma por aí a torrar o dinheiro do pai. Como o autor mesmo coloca, evita escândalos, vergonha, além de ser uma medida "profilática" para os males citados.
Felisberto pede informações para um amigo, lhe é indicada Elza e ela muda-se para sua casa para  exercer sua profissão - e ela deixa bem claro que se trata de algo profundamente profissional ostentando uma espécie de orgulho afetado quando se apresenta ao pai de família.
Fräulein supostamente é a nova governanta da casa, ensina alemão para Carlos e para as mais novas, vai se tornando uma espécie de relógio da casa, impondo disciplina. Um dia Dona Laura, se desentende com a professora e esta quase vai embora, mas fica. Continua suas lições com Carlos (tudo previamente combinado com Sousa Costa por exatos 8 contos de réis!).
E Carlos se apaixona, começa o idílio propriamente dito. Missão cumprida: amor integral ensinado ao garoto - na teoria e na prática.
O livro quase todo se passa nas dependências da casa da família, exceto por dois passeios: o primeiro é uma visita rápida a uma propriedade nova e o outro é no Rio de Janeiro.
O segundo é mais longo e nele Mario descreve o típico passeio brasileiro (com algumas citações que estarão no final).
Sousa Costa prega uma peça no filho. Um belo dia, abre a porta do quarto de Fräulein, onde acontecia a maior parte dos encontros dos amantes, e "flagra" os dois. O pai coloca a maior pressão no garoto, fala que ela é uma aventureira, que poderia querer casar-se, que poderia engravidar... e a possibilidade de um filho apavora Carlos de tal modo que o garoto entra em pânico total. Ela vai embora no dia seguinte. Fräulein, embora sofresse, queria um final trágico (coisa de alemão, e Werther é citado) e Sousa Costa, no fundo se divertiu e se sentiu o melhor dos dramaturgos. Fim do idílio.
Passa-se uma semana e Carlos na apatia total, a família toda se compadece, parece que o martírio jamais se acabará. Acaba.
Adiantou? Não sei.. Numa cena, Carlos está voltando da rua Ipiranga (conhecidamente pelos seus estabelecimentos para divertimento de cavalheiros) às 22h. Será?
E o próximo a tomar lições de amor é um Luís, assim como foram tantos outros que até se casaram... e Elza se enche de um orgulho de mãe por estes garotos - apesar de sofrer ao ver Carlos com uma namoradinha tempos depois.

Citações:

Fräulein não podia sentir a gosto com aquela gente! Podia porque era bem alemã. Tinha esse poder de adaptação exterior dos alemães, que é mesmo a maior razão do progresso deles. 

->Típica fotografia de família tradicional, católica e rica. 
(..) A mãe está sentada com a filha menorzinha no colo. O pai de pé descansa protetoramente no ombro dela a mão honrada. Em torno se arranjam os barrigudinhos. (...)

->Um exemplo de expressão freudiana (complexo de Édipo):
Maria Luísa um dia disse:
- Como ela está ficando parecida com a senhora, dona Laura.


Há muitas divagações de Fräulein pensando como age o "homem-do-sonho" e o "homem-da-vida". Este é o que grita de desejos concupiscentes, é terreno dado a soluções práticas e imediatas; aquele, é o que canaliza seus impulsos sexuais para a dimensão cultural, mais refinado, superior.

->Ironia (tem várias deste tipo):
Elza consolava a pecurrucha com meiguice emprestada. 

->Modelo de amor que ela esperava de Carlos:
O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores.(...)
O amor sincero, elevado, cheio de senso prático, sem loucuras.

->Modelo de amor que ela obteve de Carlos:
O amor latino, sem as idealizações que Fräulein sonhara, amor baixo, instintivo.

->Quadro da sociedade da época - ao menos o idealizado por Fräulein:
O homem tem que ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Porém sem domínio. Provê. É certo que a mulher o ajudará. Ajudará muito, dando algumas lições de línguas, servindo de acompanhadora pra ensaios na Panzschule, fazendo a comida, preparando doces, regando as flores, pastoreando os gansos alvos do prado, enfeitando os lindos cabelos com margaridinhas...

->Palavras de Mário:
Carlos é apenas uma apresentação, uma constatação da constância cultural brasileira. E se não dei solução é porque meus livros não sabem ser tese.

->Caráter universal da obra:
Não se consegue tirar de Amar, verbo intransitivo, mais que a constatação de uma infelicidade que independe dos homens. 

->Fräulein está realmente interessada no garoto, nota que dessa vez é diferente e isso se comprova em passagens como:
Fräulein engole quase um remorso porque se apanha a divagar. (...)
Fräulein é que sentia-se quebrar. Tinha angústias desnecessárias, calores, fraquezas. (...)

-> O caso paralelo entre os dois migrantes:
Apalermados pela miséria, batidos pelo mesmo anseio de salvação, sofrenados pelo fogaréu do egoísmo e da inveja, na mesma rocha vão trêmulos se unir. A queimada esbraveja em torno. Os guatantãs se lascam em risadas chocarreiras de reco-recos. A cascavel chocalha. A suçuarana prisca.  As labaredas lambem a rocha. Pula uma irara, que susto! Peroba tomba. O repuxo das fagulhas dançarinas vidrilha de ouro o fumo lancetado pelas cuquiadas dos guaribas. Os dois tigres ofegam. Falta de ar. Sufocam, meu Deus! (...)
Agora que as relações entre os dois tigres ficaram esclarecidas, só me resta aconselhar aos leitores o seguinte: A gente não deve culpar nem Fräulein nem o criado japonês. Não adianta nada, nem são tão culpados assim. E tem isso de imensamente cômico, que no fundo se odeiam.

-> O passeio no Rio:
* "Retrato da família perante a sociedade":
(...) o trem partia. Então, depois de mais uma olhadela para ver se todos estavam ali bem garantidos, dona Laura se lembrou que era senhora de sociedade. Ergueu um pouco o busto, recolheu o ventre para caber melhor dentro da cinta e tentou guardar os fiapos de cabelo que lhe choviam pelo rosto, pela nuca, orelhas. (...)
Marina, a pretinha, era inútil aos quatorze anos de sonho. Sousa Costa, esse fazia só pagar, pagar era com ele, ninguém mais calmo para sacar a carteira do bolso e dar gorjeta boa. Mas o resto, não entendia dessas "coisas de mulher". (...) As malas todas despachadas, as maletas, bolsas, sacos de viagem, os filhos luvas (...) tudo ali.
* Aldinha se apaixona pelo garotinho norueguês de seis aninhos, Fräulein fica envergonhada com a situação - como com tudo o que aconteceu neste passeio, sentia até vontade de chorar!
Aldinha leva um tombo e vai parar no colo da mãe do garotinho, as crianças querendo biscoito, uma balbúrdia! Num momento, Felisberto se levanta, vai bater na filha; Elza avança para impedi-lo, um solavanco! Ambos de cara nos peitos de dona Laura, o trem inteiro cai na gargalhada.







A melhor coisa é ler a obra - especialmente se precisar para alguma finalidade avaliativa -, mas espero ter ajudado! Qualquer sugestão, reclamação ou elogio, comente.
Seu comentário é muito valioso. Obrigada.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Urupês



Segundo consta em http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato/outros/listagem_anexo_1.pdf

A Primeira Edição de Urupês de Monteiro Lobato foi publicada em 1918. O autor pertence ao pré-modernismo e, tal qual sua "geração" é um crítico de seu tempo. Digo geração entre parênteses porque o período é mais um intervalo entre Realismo e Naturalismo (início em 1881 aqui no Brasil) e Literatura Moderna (1922) do que um movimento com características comuns; em verdade, a literatura das duas primeiras décadas do século passado é marcada justamente pela falta de peculiaridade do que pela presença desta. 

Análise dos contos:
[INCOMPLETA]

O engraçado arrependido:

Conto narrado em terceira pessoa, publicado pela primeira vez na Revista do Brasil em 1917, sob título A Gargalhada do Colector.
Personagens: Francisco Teixeira de Souza Pontes, Major Bentes (o coletor federal) e personagens "tipo" da vizinhança.

O Pontes, filho bastardo de família rica, viveu até os 32 anos tendo como renda uma boa pilhéria. Ele era uma espécie de "piada encarnada" da cidade. Todos riam dele. Um dia, cansado dessa vida e dessa postura diante da sociedade, de nunca ser levado a sério, resolveu pedir emprego no comércio e na fazenda. Ninguém o levava a sério. Tentou o governo.
A melhor alternativa que encontrou foi matar o coletor (o major Bentes): velho e cardíaco. Ficou dias tramando a fatalidade, aproximou-se do homem, tornou-se útil na repartição e afinou-se com o gosto do velho. Num dia (aparentemente o dia mais feliz da vida de Bentes) com a casa cheia, o homem deu a primeira e última gargalhada se sua vida. Como batera a culpa em Pontes, ficou isolado de tudo, não avisou seu "contato" no governo que lhe ia garantir o cargo. E o conto termina:

- Vejam que criatura! Até morrendo faz chalaça. Enforcar-se na ceroula! Esta é mesmo do Pontes... E reeditaram em coro meia dúzia de "quás" - único epitáfio que lhe deu a sociedade. 

Bucólica:

Conto narrado em terceira pessoa.
Personagens: Sinh'Ana, Luiz, Urunduva, Maria Veva papuda (mulher do bobo Pedro Suã), Inácia (a preta agregada aos Suãs que cuidava da Anica), Zico (negrinho fofoqueiro que conta o ocorrido a Inácia);

As primeiras duas páginas são marcadas pela descrição. Embora a linguagem seja moderna, há uma descrição inflamada da paisagem característica do romantismo; é de se imaginar que faz parte da ironia e da   cumplicidade da natureza para com os causos narrados nas páginas seguintes - especialmente em se tratando da morte de Anica. Aqui temos vocábulos regionais, típicos do caboclo. Lobato critica a ignorância dos personagens em algumas exclamações que parecem discurso indireto livre, Luiz, Urunduva e Anica estão doentes, mas ninguém sabe o que é. O ápice do conto é a morte de Anica; a menina morre de sede. De sede. E a paisagem passa de úmida e vivaz a árida e morta - tal qual Anica e no texto passa a predominar o discurso direto. Acamada havia 7 anos, na noite em que a negra Inácia fora à cidade vizinha para buscar um remédio para a pobre, a menina suplicara por água e não fora atendida: o pai chegara bêbado em casa e não notara, a mãe por preguiça, maldade e sabe-se lá mais o que negara um copo d'água à infeliz e o negrinho Zico - também produto da ignorância, medo da patroa e do não paga pena - recusara o último pedido da garota. Ao retornar a casa de Maria Veva, a negra se depara com a menina morta rente ao pote d'água na cozinha e parece ser a única a sofrer pela morte.  

(Curiosidade: numa das falas, o narrador chama Maria Veva de Sicorax, que consiste em uma referência à bruxa poderosa e horrenda da peça A Tempestade de W. Shakespeare)

O mata-pau:

Escrito em 1915.
Conto narrado em primeira pessoa.
Personagens: Elesbão do Queixo D'Anta, Rosinha Poca, João Poca (balaieiro, pai de Rosinha), Manuel Aparecido (apelidado Ruço por conta de seu cabelo louro).

Inicia-se com a descrição da paisagem e se atém ao cipó mata-pau e seu "ciclo de vida":

- Aquele fiapinho de planta, ali no rancho daquele cedro - [...]- Começa assinzinho, meia dúzia de folhas piquiras; bota p'ra baixo esse fio de barbante na tenção de chegar a terra. E vai sempre indo, sempre naquilo, nem p'ra mais, nem p'ra menos, até que o fio alcance o chão. E vai então o fio vira raiz e pega a beber sustâcia da terra. A parasita cria fôlego e cresce que nem embaúva. O barbantinho engrossa todo dia, passa a cordel, passa a corda, passa a pau de caibro e acaba virando tronco de árvore e matando a mãe, como este guampudo aqui.

Ao deitar os olhos sobre uma propriedade abandonada, o capataz começa a contar a história de Elesbão.
Elesbão nascera ali mesmo, decidira casar-se com Rosinha - que segundo seu pai era assanhada como a mãe e as mulheres daquela família não fugiam ao padrão. Embora a dica tenha sido dada, o rapaz casou-se. O filho não vinha. Um dia apareceu um bebê no quintal do sítio e, como não encontrassem parente do menino na redondeza, passaram a criá-lo - novamente com o alerta do velho indo contra a atitude do filho. Quando Rosa contava 30 e Manuel 18,  a relação entre os dois mudou e o povo começou a falar. Com o pé na cova, mais uma vez o velho alertou o filho acerca da mulher. Como Elesbão tornasse taciturno, Ruço o matou com uma foice, mas nunca foi condenado por isso. Ele e Rosa passaram a viver como cônjuges em casa, mas para a sociedade, como mãe e filho. Por último Ruço convence Rosa a vender o sítio e irem para o oeste. Uma noite antes da fuga, o rapaz tenta matar a madrasta queimada, mas ela consegue escapar e enlouquece no hospital.

O estigma:

Conto narrado em primeira pessoa.
Narrador: Bruno
Personagens: Bruno, Fausto, Laura, a mulher (má) de Fausto.

Bruno está saindo de uma cidadezinha no interior quando se perde à noite na chuva e, por engano, chega a fazenda de um velho amigo dos tempos da faculdade. No jantar, Bruno contempla a beleza, a simplicidade, a simpatia e a docilidade de Laurita; observa o ar de maldade da senhora da família Leme da Pedra Fria, seus traços gélidos e seu olhar de ave de rapina. Fato: Fausto casou-se por dinheiro. Sua infelicidade conjugal e sua paixão pela prima estão largamente confessadas no excerto abaixo:

 - Sabes o que é uma face noruega? Cá tens uma. Não bate o sol. Muita folha, muito viço, verdes carregados, mas nada de flores ou frutas. Sempre esta frialdade úmida. Laura... é como um raio de sol matutino que folga e ri na face noruega da minha vida...

Vinte anos depois, Fausto e Bruno se reencontram e este é atualizado do que acontecera na vida daquele: Laura sai um dia para uma caminhada costumeira e não volta. A mulher de Fausto havia matado a pobrezinha por ciúme. Fausto, ao encontrar o corpo frio da moça, tomado por um lapso de insanidade, beija-a. Na ocasião, a mulher estava grávida; na penúltima página, nasce o filho com "o estigma" (mancha semelhante ao tiro e ao sangue escorrido no peito de Laura), denúncia cabal de que a única evidência de suicídio, a arma de Fausto ao lado da mão de Laura, era falsa. A senhora Leme morre de febre puerperal.

Velha praga:

É um artigo, não um conto. Aqui Lobato ataca atrozmente o caboclo, considera-o a "velha praga" que impede o país de crescer. O sertanejo, com a prática da coivara (desmatamento e posterior queimada) o sertanejo vai empobrecendo a terra e como uma verdadeira praga, devasta a terra, absorve tudo o que ela tem de bom - não produz coisa alguma -, apenas consome e destrói o que vê pela frente. É uma praga funesta.

Urupês:

O texto é mais dissertativo-descritivo do que narrativo. Aqui o autor faz referências ao romantismo (indianismo de Alencar) e à medida que descreve peculiaridades do homem sertanejo critica severamente sua improdutividade na terra (tal qual o urupê), sua falta de ambição, ausência de produtividade artística e dá exemplos de soluções paliativas transmitidas de geração em geração sem serem questionadas ou burladas - justamente por serem expressão máxima da "lei do menor esforço", consagrada pela fala Não paga pena
E o conto se encerra com:

Só ele [o caboclo] não fala, não canta, não ri, não ama.
Só ele, no meio de tanta vida, não vive...